25 julho 2017

EXISTENCIALISMO E LITERATURA

«Só meditando profundamente no que significa a morte, é que nós poderemos ver bem o que com ela se perde e o valor disso que se perde. Por outro lado, a morte é uma prefiguração do que de limite, de fim, preside a todos os actos da vida, já que a cada instante nós estamos de algum modo a realizar actos irremediáveis. A meditação da morte não é pois um fim, mas um meio. Meio de valorizarmos a vida, meio de assim mesmo respeitarmos a vida nossa e alheia, meio de reflectirmos sobre o irremediável do que formos fazendo, meio, em suma, de encararmos a sério esse facto extraordinário que é a vida do homem.»
--- VERGÍLIO FERREIRA, "Existencialismo e literatura".
 
 
 
 

24 julho 2017

"CÂNTICO FINAL", MEDITAÇÃO SOBRE A MORTE

Francisco de Goya, Fuzilamentos de três de Maio de 1808
Abriu a revista, e Mário sofreu uma ataque de agonia. Era uma reportagem sobre fuzilados de uma revolução num país distante: fotografia de um dos condenados bebendo o cálice de rum; fotografia do instante do fuzilamento («como um quadro de Goya» - dizia o repórter).
--- VERGÍLIO FERREIRA, Cântico Final, cap. X.
 

17 julho 2017

AS EGAP-EXPOSIÇÕES GERAIS DE ARTES PLÁSTICAS EM "CÂNTICO FINAL"

Diário da Manhã, órgão oficioso da União Nacional salazarista, na sua edição de 9 de Maio de 1947

Uma das perspectivas de Cântico Final, de Vergílio Ferreira, é a que se prende com o debate sobre arte que nos anos do pós-guerra teve lugar entre os intelectuais e artistas portugueses. No seio da corrente neo-realista, preparavam-se as grandes polémicas dos anos cinquenta, de que as referências aos críticos Ramiro e Rebelo se constituem como uma evidente alusão ficcional. De interesse, a referência a uma das Exposições Gerais de Artes Plásticas (talvez a de  1947), certames que agregavam artistas independentes – leia-se, não vinculados às iniciativas do SPN/SNI – procedentes de diversas orientações estéticas, do neo-realismo ao abstracionismo. Em que corrente se integraria o “Galo” do protagonista Mário?
Cerca de cem artistas, não só de diversas tendências estéticas mas de diferentes ramos da arte estiveram presentes na I Exposição, a de 1946. Ao princípio, o poder constituído não desconfiou de nada; depois é que se deu conta do que ali se preparava de subversivo.  As EGAP realizaram-se anualmente de 1946 a 1956, com excepção de 1952, ano em que a Socidade Nacional de Belas-Artes se encontrava encerrada  pela PIDE.

12 julho 2017

ONDAS DO MAR DE VIGO

7-7-2017, Estação de Vigo-Guixar, a apanhar o comboio para Oporto com o jogral MARTIM CODAX no pensamento.
 
CANTIGA D´AMIGO
 
Ondas do mar de Vigo,
se vistes  meu amigo!
e ai Deus, se verrá cedo!
 
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
e ai Deus, se verrá cedo!
 
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
e ai Deus, se verrá cedo!
 
Se vistes meu amado
por que ei gram cuidado!
e ai Deus, se verrá cedo!
 


11 julho 2017

"Cântico Final" de Vergílio Ferreira - 28 de Julho - 21h00

A abrir:

“Por uma manhã breve de Dezembro, um homem subia de automóvel uma estrada de montanha. Manhã fina, linear. O homem parou um pouco, enquanto o motor arrefecia, e olhou em volta, fatigado. Aqui estou. Regressado de tudo. Pelo vale extenso até a um limite de neblina, viam-se aqui e além indícios brancos de aldeias, brilhando ao sol. Que dia é hoje? Pelos campos perpassava uma alegria estranha, talvez do sol e daquele fundo silêncio a toda a volta, sem uma voz repentina das que sobem e vibram nas manhãs de trabalho. E de súbito lembrou-se: para o fundo do vale, ouviu o dobre dos sinos do Freixo. Manhã de domingo, manhã de infância, sinos de outrora…”


In “Cântico Final” de Vergílio Ferreira

29 junho 2017

A CAPA DO ELOGIO

Alegoria com Vénus e Cupido, 1545, Bronzino

INGRES, MUSEU DO LOUVRE

2014, Museu do Louvre, sob o encantamento de Ingres... O Elogio tem de bom trazer estas coisas à memória.



ANUNCIAÇÕES

Esta, ortodoxa, do pintor Andei Rubliov (lembrar o filme de Tarkovsky), na Catedral da Anunciação, Kremlin de Moscovo.
...É como se a conversa tivesse terminado, nada há a acrescentar...Fiat! Bem à maneira ortodoxa.


















                                                                                                     

MAIS VERSÕES DE VÉNUS COM O AMOR E...

Do mesmo Ticiano (ou Tiziano), para deleite dos encomendadores, ao tempo, e nosso, agora.




27 junho 2017

CANDAULES, REI DA LÍDIA

WILLIAM ETTY (1787-1849), Candaules, King of Lydia, Shews his Wife by Stealth to Gyges, One of his Ministers, as She Goes to Bed (1830), óleo sobre tela.
 
 

23 junho 2017

SOBRE O "ELOGIO DA MADRASTA"


Impressões de uma amiga, não frequentadora da nossa Comunidade, que leu o livro há alguns anos:

Llosa, no Elogio da Madrasta, certamente uma consistente composição narrativa, de trechos interpolados e magníficas descrições de pinturas famosas, eróticas, todavia de anteriores épocas, enquadradas em rica e poética intertextualidade, foi obra lida há tempos. Tesouro de construção literária, deixou-me azedume face ao enteado, adolescente em afirmação de poder contra e sobre o feminino, a madrasta, mulheraça de contornos idênticos ao do seu marido, superior na hierarquia do jovem,  não a empregada doméstica, sua subordinada, a que depois se lança - as mulheres da casa, a mulher instanciada nas mais próximas, sei lá… Se as primeiras emoções sexuais assim se esboçam... patriarca no poleiro, a decidir e o adolescente já a querer substituí-lo, desprezando e servindo-se do outro (como a madrasta dele, claro) , está-se face a perversão das relações desejáveis em comunidade - não no mero sentido sexual. Espelho de certo meio social, infecção de duas gerações? Sátira? (…) E um rasto de certo humor discreto. Contudo a beleza da escrita não me empolga, excessivo para a temática: seres submetidos a impulsos por si mesmos, sensualidade pela sensualidade que nisso se esgota, ternura zero, encerrados seus autores num casulo, não há outros nem cosmos, mais nada. Estranho. Jogos num campo único, sem mais sopro vital. Lembro os rituais corporais, os banhos, e isso é interessante, iniciáticos, mais velhos a passar testemunho ao adolescente, certo plano mítico. Muitas vidas comunitárias ( penso em certo monaquismo, como em Quram, que visitei) dispunham de inúmeros reservatórios de águas destinadas a sucessivos banhos. Atenção a uma corporalidade neste caso banida, expandida em Llosa. Curiosa ritualização, evoca-me a sacralidade inicial, SACER no indoeuropeu, que era a fecundidade, tudo o que faz crescer, e inchar, GONFLER. Acento na fisicalidade, sem contornos além do encontro de corpos. Todavia, do que retive na memória, é uma duplicidade, inocência-perversão o foco da obra: a relação madrasta-enteado e o desejo mútuo, mas já acima apontei como senti tal acordar para a sexualidade. Vejo-o negativo, não penso que deva seguir o desejo por vias de vontade de domínio, de manipulação, de denúncia - a redacção e sua leitura não são inocentes; como nem a frase final,  tipo, «mas ela não é minha mãe», incesto arredado; ou o desvio de «amar a mãe», «usar a madrasta», de cabeça um tanto oca. Creio ser mais o determinar-se a usurpar o poder familiar do pai.
 

15 junho 2017

PARA QUEM NÃO SAIBA...

... A HISTÓRIA TEM CONTINUAÇÃO
«Bateram à porta, Dona Lucrécia foi abrir e, retratada no vão, com o fundo das tortuosas e encanecidas árvores do Olivar de San Isidro, viu a cabeça de caracóis dourados e os olhos azuis de Fonchito. Tudo principiou a girar.»
 

11 junho 2017



Sinopse

Lucrécia e dom Rigoberto vivem em constante felicidade. Ela, uma mulher que acaba de completar 40 anos, nada perdeu da sua elegância e sensualidade; ele, no segundo casamento, descobriu por fim os prazeres da vida conjugal. Juntos, crêem que nada pode afetar esse idílio, cheio de fantasias e de sexo. Alfonso, ou Fonchito, filho de dom Rigoberto, parece ser o único empecilho; ama demais sua mãe, Eloísa, para aceitar a chegada de uma madrasta. Mas até ele acaba por ser conquistado pelos encantos de dona Lucrécia. O amor do menino pela sua madrasta, entretanto, vai muito além do que se esperaria de uma criança, desenhando uma linha ténue entre a paixão e a inocência que mudará o destino de cada um deles.

01 junho 2017

NÓS, OS DE VONDELPARK

MANUEL TEIXEIRA-GOMES, novela Deus ex machina:
«Um dia que eu ficara de me encontrar em Vondel-Park – próximo ao Rijsks-Museum – com vários elegantes de ambos os sexos para dali seguirmos  em excursão de patinagem até Harlém, logo à entrada do parque, numa volta estreita e mal concorrida do lago, a atenção prendeu-se-me irresistivelmente numa rapariga encantadora, de farta e negra cabeleira solta, que patinava sozinha, e fiquei-me a contemplar-lhe os graciosos movimentos sem mais me lembrar de que a poucos metros de distância era impacientemente esperado por um numeroso grupo de amigos.» --- A acção desta novela decorre no Inverno de 1890. Cheguei a Vondelpark tarde de mais, precisamente na manhã do dia de Natal de 2013 – 123 anos depois de Manuel Teixeira-Gomes –, e já não vi a rapariga encantadora de farta e negra cabeleira solta. Naquela altura  o lago não estava gelado e àquela hora da manhã nenhuma rapariga por ali andava, mas alegrei-me de dar com a estátua do poeta Joost van den Vondel (1587-1679), figura maior do século de ouro holandês. É ele, como se percebe, que dá nome ao parque. A estátua, inaugurada em 1867, não teria passado despercebida ao escritor algarvio, mas que interesse podia ter a pedra e o bronze ante os movimentos graciosos da patinadora?  
     

31 maio 2017

A LITERATURA ERÓTICA EM 1935





Novelas Eróticas, edição "Seara Nova" de 1935 (ano da morte de Fernando Pessoa), com advertência aos leitores: LEITURA PARA ADULTOS. Fica-se a saber que teve uma tiragem de 300 exemplares FORA DO COMÉRCIO. --- Fotografias obtidas ontem em exemplar de biblioteca pública.  
 

30 maio 2017

O SÍTIO DA MULHER MORTA

 
 

Uma das novelas eróticas de Manuel Teixeira-Gomes que ontem reli na BN nesta edição preciosa. De um ensaio de Urbano Tavares Rodrigues, respigo a seguinte nota a respeito de outra novela, a "Deus ex machina": « O que nos impressiona desde logo, como aliás sucede com a maior parte das novelas e contos de Teixeira-Gomes, é a desproporção entre a riqueza do discurso e a relativa pobreza da estória (...)» Ora isto fez-me lembrar a nossa leitura de Ronda das Mil Belas em Frol e as apreciações atinentes de algumas leitoras. De qualquer forma, tendo em conta o conjunto da obra, Mário de Carvalho ainda está uns furos acima de Manuel Teixeira-Gomes.

25 maio 2017

PHILÉAS LEBESGUE, POETA E AGRICULTOR

Mais n´est-tu pas toi même un
jet d´eau qui s´irise
Et qui vers l´infini s´élance et
puis se brise?...
 
Conto "Cordélia", de M. Teixeira-Gomes, epígrafe de Philéas Lebesgue (1869-1958). O poeta francês, que entre 1911 e 1933 esteve por três vezes em Portugal, correspondeu-se com o autor das Novelas Eróticas e ainda com Sá-Carneiro, Teixeira de Pascoaes, Téofilo de Braga e Bernardino Machado. Mais informação aqui: http://www.maisons-ecrivain-picardie.fr/ecrivains-celebres-picardie-biographie-La-maison-de-Phileas-Lebesgue-fr-15.html




09 maio 2017

"Novelas Eróticas" de Manuel Teixeira-Gomes - 2 Junho às 21h00


A abrir o conto sem nome ou chamado apenas "?"

"O meu quarto na hospedaria Fra Giaccomo em Smirna, era uma gaiola de vidro suspensa sobre o mar, e isso concorreu muito para que eu aí me demorasse mais do que projectara. Não que o panorama fosse risonho; bem pelo contrário. A desarmónica imensidade do golfo, a disposição das esmagadoras montanhas vizinhas, a cidade que não brilha, com o seu casario escuro apinhado nas encostas, nas alturas recortadas de ameias, restos de arruinadas fortificações antigas, todo este conjunto formava um quadro melancólico. E a pretensiosa fachada italiana da cidade (existiria ela ainda?) que levantaram sobre o cais, a semelhança de Messina, era mais um engano que a ninguém alegrava nem contentava. Depois, a situação moral dos habitantes (domínio de dez mil turcos sobre trezentos mil italianos, gregos, arménios e judeus), os receios, os terrores mal disfarçados da população cristã, a qual dir-se-ia que julgava próxima e inevitável a chacina exterminadora com que os muçulmanos a ameaçavam, diariamente e sem rebuço, junto a uma profunda crise económica, alimentavam a atmosfera de tristeza que a paisagem, com os seus inúmeros ciprestes, por seu turno acentuava..."

in "Novelas Eróticas" de Manuel Teixeira-Gomes

03 maio 2017

Sessão de Maio, que será em ... Junho!


Caros Amigos

Por razões devidamente justificadas e mais do que válidas, a sessão de 26 de Maio ("Novelas Eróticas" de Manuel Teixeira Gomes) passa para 2 de Junho. Atentai, pois então! E obrigada!


27 abril 2017

SOBRE LITERATURA E LEITURAS

JOSÉ RÉGIO há perto de 90 anos:
 
Literatura é pura e simplesmente um meio de expressão artística - como a pintura, a escultura, o cinema, a dança, a arquitectura, a música.
 
O que então inspira a obra de arte - é a paixão; e uma paixão considerada infamante ou uma paixão considerada nobre - podem da mesma forma inspirar Obras elevadas sob o ponto de vista que nos interessa : estético. O ideal do Artista nada tem a ver com o do moralista, do patriota, do crente, ou do cidadão: Quando sejam profundos e quando se tenham moldado a uma certa individualidade, tanto o que se chama um vício como o que se chama uma virtude podem ser igualmente poderosos agentes da criação artística: podem ser elementos de vida duma Obra.
 
Acuso aqui os nossos críticos de não se interessarem pelas Obras de Arte que pretendem criticar.
 
E dir-se-ia que eles exigem tudo da literatura - a morigeração dos costumes; a formação do carácter; a solidificação das convenções sociais; o robustecimento da raça; a certificação do dogma da Imaculada; a extirpação da hidra jesuítica; a defesa do feminismo; o progresso da Associação dos Scotes; a propaganda da república, da monarquia, do anarquismo, do socialismo, do bolchevismo, do óleo de rícino, dos pós de Keating, do calçado Atlas, das calças largas, dos milagres de Fátima, ou das predilecções particulares de cada um - tudo, menos o que se deve exigir à literatura, como à pintura, à dança, à escultura, ao cinema, à arquitectura, à música: satisfação à nossa necessidade de emoções estéticas.
 

24 abril 2017


CARÍSSIMOS LEITORES, ATENTEM NO SEGUINTE:

www.ccb.pt/Default/pt/DiasDaMusica/Sabado/Evento?a=978

(Lá estaremos, "algumas" de nós, para dar testemunho?)


10 abril 2017

"Ronda das mil belas em frol" de Mário de Carvalho, 28 de Abril às 21h00


A Sinopse diz assim:

"Eis um livro de ficção sobre sexo. Todas as histórias nele contidas narram percalços, espantos e sobressaltos de ligações íntimas entre homens e mulheres. O que se desvenda, o que se oculta. Rasgos perversos. Permanências e rupturas.

Nem sempre se encontra o que se espera, nem se espera o que se encontra. A variedade é avassaladora. A diferença inevitável. Neste jogo de corpos enlaçados, não poucas leitoras ficarão admiradas com certo olhar masculino. Talvez passem a conhecer ainda melhor outras mulheres. E os leitores também não perdem nada em saber o que pode surpreendê-los nas voltas do mundo."

A ver vamos ...

Livro em curso: "Ronda das mil belas em frol" de Mário de Carvalho

04 abril 2017

Vamos voltar à Sexta-feira!


 Amigos

Como já será do conhecimento da maior parte dos membros da Comunidade de Leitores de SDRana e face à nova disponibilidade da nossa Biblioteca, vamos voltar a reunir na última sexta-feira de cada mês entre as 21h00 e as 23h45.

Assim, as sessões da Comunidade para o segundo trimestre serão em

Abril, dia 28
Maio, dia 26
Junho, dia 30

01 março 2017

"Quantas Madrugadas Tem a Noite" de Ondjaki - 25 de Março às 15h00

A abrir

"Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração, tud’uma batida só, sangue leve no peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem? Se é impossível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá... Desde candengue que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem as nuvens dele também? De onde eu venho é muito longe, por isso, juro mesmo, nasci de novo. Vou te confessar: espanto é só aquilo que ainda nunca tínhamos vivido com a nossa pele!
Avilo, desculpa tanta filosofia, o que tenho é sede mesmo..."

in "Quantas Madrugadas Tem a Noite" de Ondjaki

26 fevereiro 2017

PÓS-SESSÃO, ONTEM, NO CCB

«O teu amor quando palpita / verdade seja dita / faz-me atrasar os ponteiros /como a ostra esconde a pérola / aos viveiros.» - Sérgio Godinho cantado por Cristina Branco.
Sessões de autógrafos: a de ontem e a antiga
 
 

25 fevereiro 2017

Três dezenas de leitores...

 
 
 
 
 
 
... é o número médio que andamos a registar nas nossas sessões mensais. Hoje marcaram presença 29 leitores. Tendo presente realidades de outras comunidades de leitores, constato que a nossa está bem cimentada, com um grupo coeso e cada vez mais interessado nas leituras propostas. Reunir nesta Biblioteca, uma vez por mês  numa tarde de Sábado, 3 dezenas de pessoas que vão pelo prazer de falar sobre um livro (e tudo o mais que daí advém), começa a ser digno de registo. A magia dos livros tem destas coisas! 

Hoje, Agualusa levou-nos pelos caminhos da construção de memórias, de passados imaginados tornados reais. Pelo caminho veio Eça, Borges, a lusofonia, o riso das osgas asiáticas e os meandros negros da política, entres outros. Para alguns, com reais vivências africanas, as memórias que vieram à luz, foram emotivamente partilhadas com os demais. Foi mais uma sessão, forte na partilha do conhecimento em que, a diferença das opiniões não divide, mas une e enriquece. Que venha a próxima!

17 fevereiro 2017

"O VENDEDOR DE PASSADOS", de José Eduardo Agualusa


--- Transcrevo a introdução de um trabalho académico feito por este escrevente no ano lectivo de 2007/2008, ano curricular do mestrado, seminário de Literaturas de Língua Portuguesa:

INTRODUÇÃO

Ao pretendermos estudar o romance O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa, não podemos deixar de ter em consideração a visão dicotómica de Pires Laranjeira em relação à actualidade literária de Angola:

«No pós-independência, há na literatura um discurso ideológico do poder e outro do contra-poder. O discurso do poder procura legitimá-lo pelo poder do enraizamento e da nacionalidade. O discurso do contra-poder não discute a nacionalidade, mas pode discutir o modo como ela se legitimou, recuando às origens. Ou pode simplesmente silenciá~la, enquanto tema, ou secundarizá-la.»

José Eduardo Agualusa nasceu na cidade do Huambo (Nova Lisboa na toponímia colonial) em 1960 e é considerado um escritor da diáspora. De facto, já residiu em Olinda, Brasil, país aonde se desloca com frequência e onde desenvolve, ao que julgamos saber, projectos editoriais. Estanciou em Berlim, onde escreveu, ao abrigo de uma bolsa de criação literária da Deutscher Akademischer Austausschdienst, o romance O Ano em que Zumbi Tomou o Rio (2002). Reside actualmente em Lisboa.

Perpassa pela sua obra, logo desde o primeiro romance, A Conjura (1989), e, em especial , em Nacão Crioula (1998) - onde se revela a “correspondência secreta” de Fradique Mendes e a surpreendente adaptação daquela personagem queirosiana ao mundo tropical – a afirmação dos valores da miscigenação, não apenas rácica mas, sobretudo, cultural, o que o leva a desenvolver um projecto literário onde já se apontaram indícios das teorias luso-tropicalistas de Gilberto Freyre ou, no mínimo, as marcas da crioulidade que Mário António Fernandes sustentou na sua produção ensaística.

Pesará nesta inclinação intelectual a origem do escritor, nascido em Angola mas filho de pai com raízes portuguesas e de mãe com ascendência brasileira. A própria repartição espacial da sua vida e as iniciativas que desenvolve no triângulo Angola-Portugal-Brasil, contribuem para a imagem de um escritor dividido pelos espaços da lusofonia, essa comunidade de falantes em que os Portugueses tendem a ver o que sobrou dos estilhaços do Império  e que Eduardo Lourenço já apresentou como uma miragem cultural ou a imagem actual do nosso mapa cor-de-rosa. É, de resto, esse território mítico desfeito pelo ultimato inglês de 1890 que, de certa forma, surge no seu último livro, As Mulheres de Meu Pai, uma viagem de Angola à contracosta, realizada desta feita pelo litoral africano, de Luanda à Ilha de Moçambique.

Em O Vendedor de Passados opera-se uma dessacralização da terra natal e da sua História, tocando-se  em complexos motivos como a invenção da memória ou o vazio dela na emergente nação angolense. O livro é marcado por uma epígrafe de Jorge Luís Borges e um narrador que nos atreveríamos a chamar borgiano, embora o modelo não se possa considerar original.

Assim, o nosso trabalho sobre a obra e o autor escolhidos, desenvolver-se-á segundo as seguintes linhas temáticas:

1. O mito da nação crioula.

2. Nação angolense e valores identitários.

3. O 27 de Maio de 1977.

4. Queirosianismo e ironia queirosiana.

5. Processos narrativos: as sombras de Jorge Luís Borges e Lygia Fagundes Teles.

--- Aqui fica a introdução, há mais 10 páginas.  Desculpem qualquer coisinha, ó leitores, que isto é trabalho de simples escolar. A nota até não foi má.

04 fevereiro 2017

O Berço

"...À noite, no quarto de engomar, a minha criada Gervásia sentou-me no chão, embrulhado num saiote. De quando em quando, rangiam no corredor as botas do João, guarda da alfândega, que andava a defumar com alfazema. A cozinheira trouxe-me uma fatia de pão-de-ló. Adormeci; e logo achei-me a caminhar à beira de um rio claro, onde os choupos, já muito velhos, pareciam ter uma alma e suspiravam; e ao meu lado ia andando um homem nu, com duas chagas nos pés, e duas chagas nas mãos, que era Jesus, Nosso Senhor. 
Passados dias, acordaram-me, numa madrugada em que a janela do meu quarto, batida do sol, resplandecia prodigiosamente como um prenúncio de cousa santa. Ao lado da cama, um sujeito, risonho e gordo, fazia-me cócegas nos pés com ternura e chamava-me brejeirote. A Gervásia disse-me que era o Senhor Matias, que me ia levar para muito longe, para casa da tia Patrocínio; e o Senhor Matias, com a sua pitada suspensa, olhava espantado para as meias rotas que me calçara a Gervásia. Embrulharam-me no xale-manta cinzento do papá; o João, guarda da alfândega, trouxe-me ao colo até à porta da rua, onde estava uma liteira com cortinas de oleado..." 

in "A Relíquia" de Eça de Queirós

"...O mulato Fausto Bendito Ventura, alfarrabista, filho e neto de alfarrabistas, encontrou numa manhã de domingo um caixote à porta de casa. Lá dentro, estendido sobre vários exemplares d’ A Relíquia de Eça de Queirós, estava uma criaturinha nua, muito magra e deslavada, com um cabelo de espuma incandescente, e um límpido sorriso de triunfo. Viúvo, sem filhos, o alfarrabista recolheu o menino, criou-o e educou-o, seguro de que um desígnio superior armara a improvável trama. Guardou o caixote, bem como os respectivos livros. O albino falou-me disto com orgulho: – Eça foi o meu primeiro berço. ..."

in "O Vendedor de Passados" de José Eduardo Augualusa

01 fevereiro 2017

“O Vendedor de Passados” de José Eduardo Agualusa, 25 de Fevereiro às 15h00

A abrir:

“Nasci nesta casa e criei-me nela. Nunca saí. Ao entardecer encosto o corpo contra o cristal das janelas e contemplo o céu. Gosto de ver as labaredas altas, as nuvens a galope, e sobre elas os anjos, legiões deles, sacudindo as fagulhas dos cabelos, agitando as largas asas em chamas. É um espectáculo sempre idêntico. Todas as tardes, porém, venho até aqui e divirto-me e comovo-me como se o visse pela primeira vez. A semana passada Félix Ventura chegou mais cedo e surpreendeu-me a rir enquanto lá fora, no azul revolto, uma nuvem enorme corria em círculos, como um cão, tentando apagar o fogo que lhe abrasava a cauda.
– Ai, não posso crer! Tu ris?!
Irritou-me o assombro da criatura. Senti medo mas não movi um músculo. O albino tirou os óculos escuros, guardou-os no bolso interior do casaco, despiu o casaco, lentamente, melancolicamente, e pendurou-o com cuidado nas costas de uma cadeira. Escolheu um disco de vinil e colocou-o no prato do velho gira-discos. “Acalanto para um Rio”, de Dora, a Cigarra, cantora brasileira que, suponho, conheceu alguma notoriedade nos anos setenta. Suponho isto a julgar pela capa do disco. É o desenho de uma mulher em biquíni, negra, bonita, com umas largas asas de borboleta presas às costas. “Dora, a Cigarra – Acalanto para um Rio – O Grande Sucesso do Momento”. A voz dela arde no ar. Nas últimas semanas tem sido esta a banda sonora do crepúsculo…”

“O Vendedor de Passados” de José Eduardo Agualusa


25 janeiro 2017

PALAVRAS PARA QUE VOS QUERO

A propósito de Luuanda e do papagaio Jacó, vede isto, ó leitores, publicado pelo escrevente há 11 anos, era ainda uma criança:

http://sonhocomandavida.blogspot.pt/search?q=Jac%C3%B3

03 janeiro 2017

"Luuanda" de José Luandino Vieira - 28 de Janeiro às 15h00


A abrir

Tinha mais de dois meses a chuva não caía. Por todos os lados do musseque, os pequenos filhos do capim de novembro estavam vestidos com pele de poeira vermelha espalhada pelos ventos dos jipes das patrulhas zunindo no meio de ruas e becos, de cubatas arrumadas à toa. Assim, quando vavó adiantou sentir esses calores muito quentes e os ventos a não querer mais soprar como antigamente, os vizinhos ouviram-lhe resmungar talvez nem dois dias iam passar sem a chuva sair. Ora a manhã desse dia nasceu com as nuvens brancas — mangonheiras no princípio; negras e malucas depois — a trepar em cima do musseque. E toda a gente deu razão em vavó Xíxi: ela tinha avisado, antes de sair embora na Baixa, a água ia vir mesmo. 

A chuva saiu duas vezes, nessa manhã.

in Luuanda de José Luandino Vieira

21 dezembro 2016

É tempo de Balanço ....

O dia do solstício de Inverno é um dia tão bom para fazer balanço, como qualquer outro! Por isso cá vai ...

12 meses, 12 livros e tanto, mas tanto mais…

Em Janeiro reunimos no restaurante "Flor do Bairro", fruto da alteração do dia e hora das nossas sessões. Tivemos que deixar o intimismo das sessões nocturnas de sexta-feira, numa das salas repletas de livros da biblioteca e passar para os sábados à tarde na sala multiusos, com a “nudez e frieza” que lhe está associada. Perdemos com a troca e ainda não estamos totalmente habituados ao novo espaço. Afinal foram 10 anos ombro a ombro com aquilo que de mais precioso nos leva ali: os livros!



No primeiro trimestre do ano chegou o ciclo “Neo-realismo na Literatura Portuguesa” e claro que não podiam faltar “Gaibéus”, de Alves Redol, “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes e “Casa na Duna”, de Carlos de Oliveira. Imbuídos do espírito, não deixámos passar a oportunidade e rumámos a Vila Franca de Xira e Alhandra à procura dos “filhos dos homens que nunca foram meninos”…



Para o segundo trimestre decidimo-nos pela “Literatura de Expressão Anglófona “ e dissecámos nos 3 meses “O Adeus às Armas”, de Ernest Hemingway, “Boneca de Luxo”, de Truman Capote e “O Fio da Navalha" de Somerset Maugham. 

Foi também um período intenso de actividades. Em Abril (e num dia de anos especial), fomos comemorar Eça de Queiroz e o 141º aniversário da publicação de O Crime do Padre Amaro, numa expedição a Leiria em torno de “A Rota d´O Crime”, alusiva ao entrecho do conhecido romance.



Entretanto, alguns dos nossos marcaram presença em duas sessões do ciclo de conversas “O escritor no seu labirinto”, na nossa Biblioteca, em Maio com Mário Carvalho e em Julho com Mário Zambujal. 

Junho foi um daqueles meses que fica para a história da Comunidade: aconteceu a tão desejada visita a La Mancha. Cervantes, El Greco, D. Quixote e Sancho, tornaram-se finalmente realidade para os membros desta comunidade que há cerca de 2 anos, andam na demanda das aventuras do Cavaleiro da “triste figura”.


Com o Verão chegaram os Russos (“Lolita”, de Vladimir Nabokov, “Margarita e o Mestre”, de Mikhail Bulgakov e “A Morte de Ivan Ilitch”, de Leon Tolstoi), as altas temperaturas e também muita animação. Começámos com uma extraordinária “viagem” no Convento de Cristo em Tomar, com direito a cânticos à capela, teatro ambulante e ceia medieval;   “Reviver o passado em Almada”, levou o grupo à margem sul numa digressão saudosista mas também renovadora; o habitual “Concerto de Órgãos” no Convento de Mafra (este ano excepcionalmente bom!); um memorável passeio pelas memórias citadinas da Paula, que nos levou do Martim Moniz à Graça; um programa nocturno no museu da cidade, com uma sessão de cinema ao ar livre “Les amants du pont neuf”, onde a bela Binoche não desiludiu, pese embora o “disfarce” da personagem. A encerrar o Verão, vieram os fabulosos concertos das sinfonias de Beethoven, no Terreiro do Paço. A música clássica mesmo ali ao alcance dos dedos.


Para o último trimestre do ano guardámos os Brasileiros (“Budapeste”, de Chico Buarque, “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos e “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, de Clarice Lispector) e terminámos com o já habitual jantar de convívio natalício, como manda a tradição.


Pelo meio aconteceram tantas outras coisas. O Teatro de S. Carlos já é praticamente uma tradição anual, com o seu fabuloso “Festival ao Largo”, a ganhar cada vez mais adeptos. Em Lisboa, muitos foram os pretextos que nos levaram à descoberta da cidade, não só pelas caminhadas no coração dos seus bairros, mas também na adesão às muitas iniciativas culturais que ali acontecem. Os moinhos de maré de Corroios e Seixal e a margem sul têm sido também um pólo de atracção para os membros desta Comunidade, com várias visitas realizadas. 


E assim caminhamos para mais um ano de leituras, sempre de espírito renovado e aventureiro.

 Festas Felizes caros Leitores!

“Tríptico de la Adoración de los Magos” - El Bosco, Hacia 1494. Grisalla, Museu do Prado